Motos voltaram a acelerar no Estoril

Motos voltaram a acelerar no Estoril

No circuito do Estoril passaram o Mundial de Moto3 júnior, o Europeu de Moto2 e a European Talent Cup, organizados pela Federação Internacional de Motociclismo.

O Autódromo do Estoril voltou a viver as emoções das competições internacionais de motociclismo, deixando para trás vários meses de paragem devido à pandemia de covid-19.

Pelo circuito português passaram o Mundial de Moto3 júnior, o Europeu de Moto2 e a European Talent Cup, organizados pela Federação Internacional de Motociclismo, que atraíram mais de uma centena de pilotos inscritos e dezenas de equipas. Por uns dias – somando os treinos e as qualificações desde sábado, a azáfama regressou às boxes e a velocidade vertiginosa das motos ecoou novamente de forma ensurdecedora desde a pista, permitindo aos jovens pilotos matarem as saudades.

“Foi uma sensação muito boa. Na semana que vem já há mais uma corrida e estou feliz por as provas estarem de volta. Desde dezembro que não andava de moto, só treinava um pouco em casa. Já eram muitas as saudades”, disse à agência Lusa o brasileiro Diogo Moreira, de 16 anos, da equipa júnior da Estrella Galícia, que levou a sua Honda ao 14º lugar na corrida de Moto3.

O olhar cabisbaixo do jovem refletia uma prova com sabor “amargo”, em que um problema no arranque o fez cair da terceira posição da grelha de partida para o último lugar, acabando por ter de correr atrás do prejuízo. Finda a corrida, Diogo saiu diretamente da pista e esteve à conversa com o pai, o único familiar que o pôde acompanhar na viagem de São Paulo para Portugal e que o tentou confortar com um beijo no rosto e um abraço.

“É sempre importante ter alguém ao lado para te apoiar em todos os momentos e o meu pai está sempre nas provas comigo”, explicou o piloto brasileiro, relativizando o impacto que a propagação do novo coronavírus teve na organização da prova no Estoril: “Foi um pouco complicado gerir [o processo da viagem], mas temos sempre de olhar em frente e não perder a concentração. Acho que não vai afetar assim tanto no futuro.”

No entanto, a pandemia inscreveu-se de forma indelével na organização da competição: das bancadas despidas de público à obrigatoriedade do uso de máscara – ainda que entre membros da mesma equipa houvesse uma adoção menos rígida, passando pela recomendação do distanciamento social e pela limitação de elementos nas equipas. Nesta retoma, corre-se para os adeptos que apenas podem acompanhar pela televisão.

“É estranho porque não há espectadores, toda a gente anda de máscara, a equipa só pode estar com quatro pessoas, mas estamos a competir e é a melhor solução possível. Infelizmente, esta é a melhor opção disponível, penso que todos estarão contentes por já poderem assistir pela televisão”, admitiu o britânico Sam Wilford (IDWE Racing), que não foi além do 12º posto nas duas corridas de Moto2 efetuadas hoje no Estoril.

Munido de máscara, o piloto de 22 anos assumiu ser “muito bom estar de volta” às corridas e defendeu que “todos estão a tentar manter-se seguros” num evento que acarreta riscos pela concentração de centenas de pessoas no mesmo local. Todavia, Sam Wilford, natural dos arredores de Londres, não escondeu que a exclusão de Portugal da lista de destinos seguros para os cidadãos do Reino Unido representa mais um problema na já exigente logística.

“Havia sempre alguma preocupação com o risco, mas foi feito um grande trabalho para tornar isto possível, temos sorte por podermos estar a correr e estão muitas equipas aqui presentes. Há algumas restrições nas viagens e creio que vou ter de ficar em quarentena duas semanas no regresso”, adiantou, sublinhando, conformado, que neste regresso às pistas não pôde ter a companhia do pai, como era habitual nas provas anteriores à pandemia.

Sem adeptos, com os elementos do staff de apoio reduzidos ao mínimo indispensável para o trabalho e pouca margem para convívio, os jovens pilotos tentavam passar o tempo de espera entre qualificações e corridas alheios à agitação das “boxes” sem perder o ritmo. Apesar do calor tórrido, houve quem procurasse vencer a espera a bater bolas com uma raquete contra a parede, a saltar à corda ou a andar de trotinete.

Contudo, também houve quem se preocupasse, simplesmente, em voltar a subir para uma moto e vencer “os muitos nervos”. Dean Berta Viñales, de 14 anos, era um desses jovens, satisfeito por voltar a viver “uma sensação bonita” com as corridas da European Talent Cup e por terminar um hiato competitivo que já se prolongava desde novembro.

“No princípio custou-me muito. Estava bastante nervoso, com tanto tempo sem fazer uma corrida e não foi fácil encontrar o meu ritmo. Estive mesmo três meses sem tocar na mota durante o confinamento e já sentia alguma falta”, declarou, confidenciando que os primos Maverick e Isaac Viñales, ambos pilotos profissionais, apenas o aconselharam a “entrar com muito flow e acelerar a fundo”.

Espanha passou por uma fase muito complicada no pico da pandemia e é ainda um dos países com mais vítimas de covid-19 no mundo. No entanto, as autoridades sanitárias espanholas apresentam atualmente números menos negativos do que Portugal, mas Dean Berta Viñales (MVK Dean Rivas Team/Honda) garantiu não ter sentido “medo” por vir competir noutro país e lamentou apenas o “ambiente um pouco “morto”” sem o público na prova.

“No dia anterior à viagem fui fazer o teste à covid-19, estava tudo bem e pude vir. Não sei como vai ser o futuro, mas vamos ver como são as próximas corridas. Foi algo estranho correr sem as pessoas nas bancadas. Não é tão divertido”, afirmou o jovem espanhol, que alcançou o 13º e o 17º lugares nas duas corridas hoje efetuadas, sob o olhar atento do avô que o acompanha desde que iniciou em 2017 o seu percurso nas motos.

Do Autódromo do Estoril, os jovens pilotos e as suas equipas seguem agora para o Autódromo Internacional do Algarve, em Portimão, que vai acolher na próxima segunda-feira nova corrida do Mundial de Moto3 júnior, do Europeu de Moto2 e da European Talent Cup. Sem público e à porta fechada, mas com a ambição de acelerar para o regresso à normalidade.